segunda-feira, 19 de março de 2012

TEMPO...TEMPO


Nada sobrou pra mim que o fio da navalha
Correndo sobre o sangue.
O estrepe no pé  que  tripudia
O olhar vazado de esperança.
A lágrima amarga no canto da boca e
O beijo contido no preto do olho.
Nada sobrou pra mim que as sobras,
O  mofo, o cocho, o destempero.
A mão cravada  no peito e
A alma crivada de sonhos.
Nada sobrou pra mim que as farpas,
O toco que estoca  na cabeça,
A roda que se agiganta no estomago
E gira nos calcanhares cheios de calos.
Nada sobrou pra mim
Que o turvar do tempo sobre um esqueleto frio e feio,
O verme que se enrosca na areia quente
A espreita de mim.
O guizo a ressoar na noite das bruxas,
O gozo da matraca a cantar no meu anteceder.
Nada sobrou pra mim, nem sorte, nem morte!
Mas a fúria, o fuso e a roca.
Um unguento  fétido e  visguento
Que alivia tempestades e afugenta a Lua cheia.
Nada sobrou pra mim....
Vandinha Valle








domingo, 18 de março de 2012

CORDEL


Minha casa, se eu a tivesse,
com toda a minha alegria,
Suas paredes eu pintaria
Com toda a cor que houvesse.

E  na janela  a enfeitar
Uma bonita floreira.
E na sala de jantar
Eu teria uma lareira.

As telhas francesas
Encharcadas pela chuva,
teriam tons de cereja
E um cheiro doce de uva.

No chão eu queria pisar
Descalça, e bem a meu gosto
Sentir a brisa a passar
Resvalando no meu rosto.

Então poderia regar
Minhas plantas, e em desvelo
Sentir o sol a brincar
Brilhando no meu cabelo.

Até  poderia  correr
Por entre flores e  cheiros...
E   contente reviver
Meus sonhos e devaneios.


Vandinha Valle