Nada sobrou pra mim que o fio da navalha
Correndo sobre o sangue.
O estrepe no pé que tripudia
O olhar vazado de esperança.
A lágrima amarga no canto da boca e
O beijo contido no preto do olho.
Nada sobrou pra mim que as sobras,
O mofo, o cocho, o destempero.
A mão cravada no peito e
A alma crivada de sonhos.
Nada sobrou pra mim que as farpas,
O toco que estoca na cabeça,
A roda que se agiganta no estomago
E gira nos calcanhares cheios de calos.
Nada sobrou pra mim
Que o turvar do tempo sobre um esqueleto frio e feio,
O verme que se enrosca na areia quente
A espreita de mim.
O guizo a ressoar na noite das bruxas,
O gozo da matraca a cantar no meu anteceder.
Nada sobrou pra mim, nem sorte, nem morte!
Mas a fúria, o fuso e a roca.
Um unguento fétido e visguento
Que alivia tempestades e afugenta a Lua cheia.
Nada sobrou pra mim....
Vandinha Valle