terça-feira, 22 de novembro de 2011

O BEIJO NO COPO

O beijo no copo





         À hora do almoço,  naquele shopping, era o seu  melhor momento no dia inteiro. Escolhera aquele lugar para descansar da rotina infernal do escritório que já se estendia por tantos anos. Gostava de ficar assim, observando o ambiente, as pessoas – silencioso- como era o seu modo de ser mais freqüente. 
         -Não voltaria ao trabalho agora, pensou com um pouco de culpa, já que nunca o fizera antes, mas hoje, especialmente, faria um horário de almoço mais extenso  e chegaria apenas  para a reunião marcada para  às 16h00min.
Estava enjoado dessa rotina.  Já não era tão jovem e ia longe o tempo em que era o primeiro a chegar e o ultimo a sair da empresa. Seu organismo clamava por mudanças. Trabalhara tanto! Fizera-se por si mesmo e progredira, ganhara dinheiro e status. Tentara sempre ser justo e leal, o necessário, por isso mesmo ganhara simpatias e inimigos apesar de nunca haver cultivado amizades ou rancores. Não tinha certeza se amara alguém  algum dia, e a esposa, os filhos, hoje ele percebia, foram exigências de sua posição e nunca  fruto  de grandes e especiais escolhas. Tornara-se, com o tempo, distante de todos arredios, cada vez mais envolvido com os negócios, e na magia do mercado financeiro aprendera a dominar as emoções, a equacioná-las, a subtraí-las, a resolvê-las. 
Não podia entender o que o impulsionava nesse dia a quebrar regras, e sorriu ao adentrar ao banheiro, abrir a torneira e lavar as mãos com capricho exagerado.  Era setembro e ele pretendia rever conceitos, pensar em si mesmo, fazer enfim um raios-X de sua existência.  Olhou longamente o rosto no espelho, apalpou a barba bem feita, relaxou o nó da gravata. Sentia-se bem nos seus quarenta anos, conclui.  Talvez devesse emagrecer um pouco, tirar um tempo para caminhar, fazer uma ginástica, jogar bola.  Passa a mão pelos cabelos impecavelmente penteados e lembra-se novamente da família. Nunca desejava estar em sua casa, perambulam pelo shopping todos os dias e almoça só, lendo o jornal sempre no caderno de economia. Talvez devesse  tomar um banho, trocar a camisa, refazer a barba. Ri ao pensar que todos se surpreenderiam com a sua chegada em casa, tão inesperada, tão absurdamente anormal
Apanha a pasta sobre o lavabo e encaminha-se ao restaurante. O garçom já o espera com um copo de suco de morango gelado e espumante e o faz sentar-se confortavelmente diante de uma janela panorâmica, de onde se vê parte da cidade. Fica ali observando a chuva que cai insistente, e apesar dela, o calor é grande neste mês de setembro.
Da janela, observa um ônibus  amarelo que  para no ponto de frente ao shopping e  dele desce, na tarde encharcada, uma mulher de jeans azul  e que atravessa a rua em desabalada carreira, tentando se proteger da chuva apenas com uma pasta sobre a cabeça. _ Elegante! - Apesar disso vai ficar ensopada-sorri divertido e continua acompanhando o trajeto da mulher até que esta desaparece sob o grande letreiro. Gostaria de ter visto o rosto dela! Sentiu uma ternura imensa pelas mulheres que corriam na chuva.
E aquela figura esguia e rápida, por um momento o fez lembrar-se de Amanda. - O que fizera de sua vida?  -Por onde andaria?  Um dia ela se fora sem se despedir e ele nunca mais a vira.  Deixara-a propositalmente a um canto de sua memória e de sua vida. - Uma bela mulher!  Suspirou. Gostava de vê-la,  de conversar com ela, de rir juntos... E riram muito. Sim senhor, ele se esquecera de quanto era boa a sua companhia! Sentiu de repente uma saudade imensa; estavam sempre juntos, mais que o normal, e pensando bem fora um bom tempo, senão, o melhor de sua vida.  Surpreendera-a um dia, a olhá-lo de um jeito especial e até pressentira um  certo desejo, mas ignorara, afinal, ela era 10 anos mais velha e isso fizera diferença em sua vaidade. Mas ela tornara-se a sua confidente, amiga, conselheira, companheira de trabalho,  de passeios, de almoços, festas... Era dessas mulheres  tão especiais, que  mesmo sem que se permitisse ela rondara os seus sonhos mais secretos. Andou de miolo mole, coração disparando, mão tremendo, desejo matutino, diurno e noturno.  Passou a evitá-la, a fugir, onde já se viu? Andavam já comentando no escritório! Coincidência ou não, Amanda fora embora. Falaram as más línguas, ora se falaram.  Andou às avessas, mal humorado, irritadiço, sem apetite. Mas passou. Casou, teve filhos.
-Como ela era linda!  Ponderou. Hoje ela estaria com cinqüenta anos. Acariciou a lembrança da amiga, pensou em si mesmo e em seus quarenta anos.  
Amanda tinha as pernas mais bonitas que ele já vira. Rijas, fortes, delgadas, esguias, e um par de joelhos... hum!!!.... Jamais aparentara a idade que tinha, embora não a escondesse, muito pelo contrario, divertia-se da confusão que provocava. Parecera-lhe, desde o primeiro momento um sol naquele ambiente frio do escritório. Nunca se enquadrara realmente às normas rígidas, e sempre que podia as transgredia. Trouxera, um dia, um vaso de flores vermelhas para compor a sua mesa, e abrira as janelas deixando o sol cobrir de luz os processos amontoados nas    prateleiras. Numa outra ocasião, irrompera em sua sala enchendo-lhe o rosto de beijos e abraçando-o efusivamente pelo seu aniversário. Lembrava-se agora, com um gosto supremo, do próprio rosto queimando, como se fora um adolescente. Ela  trazia uma alegria natural e duradoura,   era solidária, justa, suave, leal, companheira, dedicada  e competente...
Era mecânico e formal o gesto do garçom  lhe servindo o almoço, bem como eram os seus gestos distraídos e distantes, com os olhos presos na vidraça, agora, embaçada. O barulho a sua volta aumentava à medida que se aproximavam as 14.00, e os cheiros se misturavam dificultando a sua identificação. Uma garota usando aparelho nos dentes sorriu para ele.   Lembrou-se filho. -Arre! Não o suportava com aquelas ridículas borrachas vermelhas nos dentes, falando sibilante entre os arames, dificultando ainda mais um diálogo que já não existia.  Coisa da mãe dele, que o garoto não precisava daquele artefato bucal. Mas Silene  acompanhava a moda e tudo o que o consumismo determinasse. Voltou-se para a janela, com a expressão irritada. - Por onde andaria a mulher de jeans azul?
 Descansou os talheres relembrando o dia em que surpreendera Amanda a examinar a meia com a saia levemente levantada. O constrangimento da situação não o impediu de registrar o espetáculo. Pedira desculpas e se retirara da sala, muito vermelho.
Passou os olhos preguiçosamente pela praça de alimentação e ajeitou-se na cadeira procurando uma posição mais confortável. Tomou o resto do suco que estava no copo  refletindo  que faltava bastante tempo  para as 16h00min.  Sorriu ao pensamento enquanto conferia a conta que o garçom lhe apresentava.  Jogou o cartão sobre a mesa e  só então levantou os olhos. Nesse momento, ele percebe que bem próximo de si, na mesa ao lado, de pé, com os cabelos curtos e molhados, uma mulher do jeans azul olhava diretamente para ele. Ficou estanque com a mão suspensa no ar, um sorriso trêmulo na boca, e uma expressão totalmente surpresa nos olhos. Vagarosamente ela veio a seu encontro, sorrindo-lhe. O espaço era pequeno entre uma mesa e outra, mas ele pode, nessa fração de segundos, perceber o seu quadril largo  ajustado dentro da calça jeans molhada e suas  pernas  trocando-se de forma sensual e elegante.  Um arrepio percorreu-lhe a espinha quando he adivinhou pélvis rija.  O colo arfava sob os pacotes escondendo os seios pequenos que dançavam nus sob o tecido vermelho da blusa.  Sentiu o seu perfume misturar-se a um sorriso cristalino, franco, maduro sedutor. Seus gestos eram largos e firmes.  -. Amanda!!
Ele levantou-se desconcertado, emocionado, surpreso, para  receber um abraço saudoso, efusivo, interminável!  Acolheu-a ao peito como se agasalhasse o seu próprio pensamento e com intimidade e ternura colheu o cheiro de seu cabelo; e a maciez da sua pele  pode sentir na mão que percorreu o seu ombro, exageradamente. 
_Ah quanto tempo Amanda! Ah quanto tempo! Sentam-se de mãos dadas, mudos diante da enxurrada de perguntas que se fazem das respostas que se devem. Velhos vizinhos, velhos amigos... Examinam-se.
Surpreendera-o a sua forma. Como estava bela! O tempo só a fizera mais linda e as marcas, se é que as tinha, faziam dela uma mulher única, inconfundível! Disfarçou a emoção, e a ouvia, hora sim hora não, preso à sua boca que falava e ria, evidenciando dentes alvos que contrastavam os lábios vermelhos de batom. Em um dado momento seus olhos se cruzaram e se prenderam, e o olhar dela era um corredor escuro e misterioso. Disfarçou o batimento cardíaco como pode, assim que emergiu.  Ela procurara assentar-se o mais perto possível e suas pernas se tocavam sob a mesa transmigrando um calor intenso, o qual ele consumia avidamente.
Ele tentava ser natural, comedido, casual. Pedira suco de morango para ambos e o tomava com certa ansiedade. Observou alguns cabelos brancos nas têmporas da mulher compondo como uma moldura um perfil sensato e misterioso, caminhou os olhos  pelo seu pescoço elegante, longo,  e admirou o  gesto arrogante de segurar o queixo com as mãos levemente em concha. De vez em quando ela passava as mãos pelos cabelos, ajeitando-os com a altivez de uma rainha, e com esse gesto seu colo sardento se elevava sutilmente, deliciosamente, permitindo-lhe supor seios soltos e densos. Perdeu-se em alguns momentos tentando adivinhar por onde os dedos dela viajavam quando ela os deslizava sob o decote. Seus braços estavam nus e eram alvos e inquietos como duas velas de um barco a deriva.  O seu talhe era delgado, gracioso e ali, a pele saltava á mostra pronta para ser tocada. Deteve-se, afinal, na marca de batom colada ao copo.
Fora impressão sua ou ela tremera ao abraçá-lo?  E por que ela o retivera assim com uma energia sufocante, retardando o desenlace, com o coração batendo tão alto que lhe fora possível ouvi-lo? Sentiu uma vontade enorme de passar-lhe a mão pelo rosto, contornar-lhe os lábios, fechar-lhe os olhos com um beijo. Arrependeu-se de tal pensamento e pensou em ir embora- Arranjaria uma desculpa qualquer, afinal não era feriado e precisava trabalhar... Mas estava irremediavelmente preso àquela boca que continuava a movimentar-se dentro de sua imaginação, e sem perceber, apanhou-lhe o copo  de sobre a mesa, e bebeu-lhe  o beijo da  borda.
 Olharam-se nesse momento com muita intensidade e os olhos dela eram submarinos. Suas mãos se tocaram e foi como se acontecesse um choque elétrico seguido por um silêncio mortífero. No movimento os pacotes que Amanda descansara sobre a mesa espalharam-se pelo chão, provocativamente. E lá estavam eles, tentando recuperá-los, abaixados, de joelhos, sob a mesa como duas crianças. O decote de Amanda se alargara naquele movimento  permitindo que ele  visse o proibido. Ficara estático, aparvalhado diante daquele pássaro o qual desejou ardentemente reter.  Ajudou-a, entretanto, a levantar-se, e por um instante ela esteve muito próxima, tão próxima que ele pode degustar o seu hálito de morango. Era urgente beijá-la, ali mesmo, agora, setembro, explodir enfim!       
Levou, nesse momento, mecanicamente, a mão ao celular que tocava, com os olhos irremediavelmente presos aos dela. Enquanto fala o tom de sua voz se torna grave e abotoa então o colarinho, acerta o nó da gravata, verifica os punhos da camisa, consulta o relógio,  deposita o telefone sobre a mesa  e veste o paletó. Impacienta-se com o garçom que demora, alisa o cabelo com a palma da mão, abre a pasta e confere alguns papéis. Depois, prende o celular à cintura,  murmura  uma desculpa qualquer. Afinal não era feriado!
 Toma-lhe da mão, atônita, e beija-a casualmente.
 Gira nos calcanhares, elegante, impecável, pronto, e vai direto para o escritório.      
        

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