terça-feira, 31 de maio de 2011

CHUVA VIVA



Betim  precisa da chuva.
Dessa chuva criadeira
Que corre a noite inteira
Fazendo a gente vibrar.
Uma chuva tão miúda
Que lave o meu telhado,
Que molhe o meu jardim,
Que floresça o meu jasmim
Que faça brotar o capim,
Que regue inteiro o meu sábado.


Que lave as pedras da rua,
Que faça a praça tão nua,
Que cause inveja a lua
Da beleza que causar.
Que faça a terra saciada,
E que forme corredeiras;
E nos cantos das calçadas
Forme grande enxurrada,
Onde eu possa pisar
E voltar as brincadeiras.


E quando o sol voltar
Eu sinta cheiro de terra.
Nas folhas,  os pingos d’água
Ainda brilhem como contas.
Estrelas de cinco pontas
Caindo por sobre a terra
Fazendo a gente cantar
Nessa terra de Betim
Meu amor, meu querubim.







sábado, 28 de maio de 2011

REFLEXÃO


Encanto-me com o impossível  quase sempre.
 Sufoco-me de desejo mas o medo absorve o meu interior e então calo-me na solidão e no silencio da minha noite.
Os insetos insistem em brincarem na luz e eu me divirto pensando na morte como encantamento e sedução.
         Nada poderá calar-me mais que a minha própria incompetência e a minha disposição de ficar quieta, enquanto o tempo passa sem piedade e sem governo que o domine. 
Angustio-me com a minha sombra projetada na parede pois ali sou maior que eu mesma.  E luto para encontrar aquilo que não está dentro de mim e que ficou perdido pelos caminhos que percorri. 
 È impossível calar a  minha consciência escondida detrás  do muro, então as sombras resvalam à minha volta como fantasmas endurecidos, permanentes sentinelas de minha inexistência.
Ah só o impossível me emociona e me encanta!
Ah  o sonho... Ah... o sonho!!!!

quinta-feira, 26 de maio de 2011

RECADO



Nesse peito onde me refugio                        
Quero me aconchegar
E bem devagarinho
Ficar...ficar...ficar...
Sentir teu cheiro e no teu carinho
Talvez um beijo casual quase vadio
Percorra-me suavemente a face
Provocando  em mim leves arrepios,
E me fazendo tão leve que é como se eu voasse.
Quero serenar a alma magoada
E no mar desse olhar tão doce,
Sentir-me presa e amparada
Por âncoras eternas...
Tão ternas...
Seguras...firmes...
E tão amadas!



DOCE PECADO

Doce   pecado


Naquela boca mora um beijo:
Casual  às vezes, inocente outras,
 mas atrevido, indecente, debochado,
 a me esperar distraidamente.
Impertinente me sorri...
Sinaliza para mim.
Inconveniente se insinua,
Imoral me torna nua!
Beijo  feiticeiro que  me expõe sem censura            
E me constrange
pronto a saltar sobre mim      
cegando a minha compostura,
destravando os meus conceitos,
alterando os meus costumes.
Naquela boca mora um beijo maldito
Que caminha no meu caminho,
Que dorme no meu sono,
Que ronda o meu pensamento.
Beijo vadio...
Exposto  como  numa moldura!
Inquieto, ele  resvala na minha palavra!
Letal, acelera o   coração no peito!
Ardido, acende o rubor na minha face e
Tão  suave que me faz leve e convalescente.
Beijo doce que mora naquela boca tão doce
E que  me torna diabética.
De hortelã, de aniz, de canela,
Beijo de beijo
que machuca e que cura
 que adoece e  que restabelece,
que agoniza e que ressuscita ,
que acalma e  que desespera .
ah! essa boca do sim e do não
que me atordoa, me espreita
e não me pertence.
Ah beijo da boca do inferno e
 da porta do céu !
Indecente, sem censura, sem medo,
Sem vergonha,
E que mora naquela boca proibida,
Naquela   boca ...


Vandinha valle

terça-feira, 24 de maio de 2011

DESCOMPASSO


Hoje é domingo
Pé de cachimbo...
Amanhã é segunda, dia de feira.
O homem corcunda lá estará
com a sua longa cabeleira
vendendo barriga de freira
pra moça que passa lampeira
pra mim não passará.

O dia que passa  repassa.
O sonho que veio irá
Pra longe e como a cachaça
Tem  o copo de comparsa
E pelo dia correrá.
Do bar fica a saudade,
No peito fica a vontade...
-E este dia que não passa?!

A vida corre depressa.
-Socorro! Quem está lá?
O radio toca uma prece
E o menino que não cresce
Traz um recado...ilusão...
O telefone toca chamando,
Alguém está me esperando
Bate- bate coração!

Chama a panela vazia
Oh  fulana venha cá!
E a casa desarrumada
Também está a chamar.
Desse jeito  a alma fria
Já não pode se agüentar!
-Jogo o fone na fachada
Do primeiro que passar!

A campainha insistente
Avisa que chegou gente e
O feijão se queimará!
-Menino desce daí
Vamos todos aprontar.
-A escola... acode a porta!
Ah! -Já bateu  o que me importa?
-Ai meu Deus, o que será!

O tanque está derramando
Corre água pelo chão.
Dentro do peito jorrando,
Chora o meu coração.
Faz frio dentro de casa
Faz frio dentro do peito...
Chega o homem da COPASA.
-Passa essa roupa direito!

-O correio! que alegria!
-Minha irmã   como estará?
-A mamãe o que fará?
-E o bilhete da loteria?
-Meu Deus já são meio dia!
Não dá tempo pra pensar,
Muito menos de sonhar!

Tanta coisa pra olhar!
-Meninos dêem seu jeito!
E as plantas pra molhar?
-Vê se param de brigar!
Tiro a  panela do fogo.
E o resultado do jogo?
Desliga a televisão!!!
-Ai, meu Deus, que aflição!

O cachorro está latindo.
-Menina larga a vassoura!
-Vocês continuam bulindo!
-Sai depressa do chuveiro!
-Meninos vão apanhar!
-Será que grama é dinheiro?
-Depressa venham tomar
todo o suco de cenoura!

-Socorro onde andará
Toda a minha mocidade!
-Socorro onde andará!

Passa a vida passa o tempo,
Passo a manteiga no pão,
Passa a dor, a ilusão,
Passo o pano pelo chão,
Na roupa eu passo sabão,
Na janela ate o vento!

A vida que passa
 Repassa!
E o  mundo que eu  não sonhava
num tempo que não passava?
O amor onde andará?
Passa tudo! E, desalento!
Chora o sonho enquanto o tempo
Nunca deixa de passar.

-Joga milho pra galinha
Que o patrão já vai chegar.
Tanta  louça pra lavar!...
-Veja a saia da vizinha!
-Cuidado! Vou-me estrepar.
Corro ao posto da esquina
Que é dia da gasolina!

A tarde já vai chegando...
Passos lentos na calçada
E a criançada brincando
Faz bagunça na entrada.
-Cuidado que se machucam!
São pequeninos que buscam
Muito sonho pra sonhar,
Muito espaço pra brincar!

Alguém derrama a banheira...
Tem criança pra nanar,
Tem visita pro jantar,
-Bota lenha  na fogueira,
quando é que eu vou descansar?

A noite chega faceira
E aquela moça fagueira
Passa pra lá  e pra cá.
Os casais se namorando...
O corpo todo suando
Pede uma cama... E já!

A mão que me busca treteira
É mão de quem quer amar.
O corpo exausto se esgueira
A briga levanta poeira
Eu preciso descansar
Eu preciso relaxar
Que amanhã... é terça feira!


Vandinha Valle

segunda-feira, 23 de maio de 2011

SOLIDÃO DE ESTRELAS

Estava só naquela noite e caminhou solenemente até a porta onde olhou a lua que se fazia mais pálida que o habitual. Observou estrelas pisca- piscantes as nuvens desliza deslizantes de infinito e  sentou-se para cantar uma melodia terna. Fazia calor naquela noite e desnudou-se com um prazer imenso correndo pela brisa e deixando o vento aquecer as suas entranhas. Já era tarde quando resolveu dormir colorido o tempo que nunca haveria de ser.
Pegou pincel e tinta e deitou-se sobre o gramado com os olhos pregados no passado. Puxou sobre si mesma um traço reto e perfeito, depois fechou os olhos e deixou-se mergulhar no aconchego de fibras delicadas, macias e frescas. Ergueu o braço e pintou no vazio um abajour de cristal com luz intensa, uma cômoda cheia de gavetas e um edredom vermelho. Povoou de borboletas e flores a abóboda azul escuro. Percorreu com o dedo mergulhado em arco-íris toda a sinuosidade do hemisfério. Amava!

Vandinha valle
18.10.2002

domingo, 22 de maio de 2011

SENTIMENTO DO MUNDO


É
Musica suave,
Um jaz em noite de lua cheia,
Um céu repleto de estrelas,
O mar azul em manhã de ano novo,
Lembrança,
Um beijo proibido,
O tempo que passa,
Quarta feira de cinzas,
Desejo pronto a eclodir,
Um segredo doce que alimenta o coração de fantasia,
Abraço quente, apertado,
Uma borboleta azul ou
Um beija –flor brincando no jardim,
Leveza de balão levado pelo vento,
Folha correndo na enxurrada,
AH!Pisar no chão frio!
É retorno de viagem
E mala cheia de presentes,
Álbum de fotografias
Ou flores no aniversário,
Musica dos Beatles,
Suavidade de nuvem viajando no céu,
É tesão de madrugada!
Pensamento,
Travessia,
Encantamento,
Subversão,
Fantasia,
Banda de musica na praça,
Serenata,
Banho de cachoeira,
Hum... comer doce de leite na colher,
Prosa ao pé da fogueira,
Choro de riacho,
Pescaria...
É chuva fininha em manhã de domingo
E você do meu lado...
Andar de roda gigante
Ou voar de  motocicleta....
É chupar manga no pé,
Ler poema de Fernando Pessoa,
Noite de natal,
Voltar das férias,
É saudade,
É...um amor ... forever!

Vandinha Valle

sábado, 21 de maio de 2011

FOGUETE




Sobe ao céu um foguete!
Voam na terra os ponteiros.
O homem gira,
A vida segue,
O mundo chora.

Sobe ao céu um foguete!
O homem vive e morre,
O sol cinzento
Tange tristes gemidos.
A vida corre!

Sobe ao céu um foguete!
O pobre esmola,
O rico escarnece,
A vida sofre, O mundo morre...
E sobe ao céu um foguete!

Vandinha Valle