quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

 
Menina chata , chorona,
Lambona,molenga
Arteira, treteira,
Sem graça, sem força,
Sem tino.
Crivada de sonhos,
Cega de mágoas,
Muda de espanto.
Pedinte,  carente, humilhada,
Escorraçada, seviciada...
Sem horizonte, sem serventia...
Pudesse viver...
Pudesse existir...
Pudesse falar...

Vandinha Valle

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

DA PALAVRA



 


Etéreo como o raio de luz que se derrama
É a alma do poeta quando chora.
Imperceptível como átomo quando chama
À flor dos lábios seu mundo sem aurora.

O mundo do poeta é como gota d`água,
Milimetrado por extensão  a sua riqueza.
Tendo por largura a força de sua mágoa
E por quilate seu canto sem beleza.

Como ângulo sem graus  é medida
A vida do poeta que só canta
Quando tem para cantar a própria vida.

Por isso o seu cantar é transparente.
Como a linha do horizonte que espanta
O cantar do poeta  encanta a gente.


 Vandinha Valle 






terça-feira, 22 de novembro de 2011

O BEIJO NO COPO

O beijo no copo





         À hora do almoço,  naquele shopping, era o seu  melhor momento no dia inteiro. Escolhera aquele lugar para descansar da rotina infernal do escritório que já se estendia por tantos anos. Gostava de ficar assim, observando o ambiente, as pessoas – silencioso- como era o seu modo de ser mais freqüente. 
         -Não voltaria ao trabalho agora, pensou com um pouco de culpa, já que nunca o fizera antes, mas hoje, especialmente, faria um horário de almoço mais extenso  e chegaria apenas  para a reunião marcada para  às 16h00min.
Estava enjoado dessa rotina.  Já não era tão jovem e ia longe o tempo em que era o primeiro a chegar e o ultimo a sair da empresa. Seu organismo clamava por mudanças. Trabalhara tanto! Fizera-se por si mesmo e progredira, ganhara dinheiro e status. Tentara sempre ser justo e leal, o necessário, por isso mesmo ganhara simpatias e inimigos apesar de nunca haver cultivado amizades ou rancores. Não tinha certeza se amara alguém  algum dia, e a esposa, os filhos, hoje ele percebia, foram exigências de sua posição e nunca  fruto  de grandes e especiais escolhas. Tornara-se, com o tempo, distante de todos arredios, cada vez mais envolvido com os negócios, e na magia do mercado financeiro aprendera a dominar as emoções, a equacioná-las, a subtraí-las, a resolvê-las. 
Não podia entender o que o impulsionava nesse dia a quebrar regras, e sorriu ao adentrar ao banheiro, abrir a torneira e lavar as mãos com capricho exagerado.  Era setembro e ele pretendia rever conceitos, pensar em si mesmo, fazer enfim um raios-X de sua existência.  Olhou longamente o rosto no espelho, apalpou a barba bem feita, relaxou o nó da gravata. Sentia-se bem nos seus quarenta anos, conclui.  Talvez devesse emagrecer um pouco, tirar um tempo para caminhar, fazer uma ginástica, jogar bola.  Passa a mão pelos cabelos impecavelmente penteados e lembra-se novamente da família. Nunca desejava estar em sua casa, perambulam pelo shopping todos os dias e almoça só, lendo o jornal sempre no caderno de economia. Talvez devesse  tomar um banho, trocar a camisa, refazer a barba. Ri ao pensar que todos se surpreenderiam com a sua chegada em casa, tão inesperada, tão absurdamente anormal
Apanha a pasta sobre o lavabo e encaminha-se ao restaurante. O garçom já o espera com um copo de suco de morango gelado e espumante e o faz sentar-se confortavelmente diante de uma janela panorâmica, de onde se vê parte da cidade. Fica ali observando a chuva que cai insistente, e apesar dela, o calor é grande neste mês de setembro.
Da janela, observa um ônibus  amarelo que  para no ponto de frente ao shopping e  dele desce, na tarde encharcada, uma mulher de jeans azul  e que atravessa a rua em desabalada carreira, tentando se proteger da chuva apenas com uma pasta sobre a cabeça. _ Elegante! - Apesar disso vai ficar ensopada-sorri divertido e continua acompanhando o trajeto da mulher até que esta desaparece sob o grande letreiro. Gostaria de ter visto o rosto dela! Sentiu uma ternura imensa pelas mulheres que corriam na chuva.
E aquela figura esguia e rápida, por um momento o fez lembrar-se de Amanda. - O que fizera de sua vida?  -Por onde andaria?  Um dia ela se fora sem se despedir e ele nunca mais a vira.  Deixara-a propositalmente a um canto de sua memória e de sua vida. - Uma bela mulher!  Suspirou. Gostava de vê-la,  de conversar com ela, de rir juntos... E riram muito. Sim senhor, ele se esquecera de quanto era boa a sua companhia! Sentiu de repente uma saudade imensa; estavam sempre juntos, mais que o normal, e pensando bem fora um bom tempo, senão, o melhor de sua vida.  Surpreendera-a um dia, a olhá-lo de um jeito especial e até pressentira um  certo desejo, mas ignorara, afinal, ela era 10 anos mais velha e isso fizera diferença em sua vaidade. Mas ela tornara-se a sua confidente, amiga, conselheira, companheira de trabalho,  de passeios, de almoços, festas... Era dessas mulheres  tão especiais, que  mesmo sem que se permitisse ela rondara os seus sonhos mais secretos. Andou de miolo mole, coração disparando, mão tremendo, desejo matutino, diurno e noturno.  Passou a evitá-la, a fugir, onde já se viu? Andavam já comentando no escritório! Coincidência ou não, Amanda fora embora. Falaram as más línguas, ora se falaram.  Andou às avessas, mal humorado, irritadiço, sem apetite. Mas passou. Casou, teve filhos.
-Como ela era linda!  Ponderou. Hoje ela estaria com cinqüenta anos. Acariciou a lembrança da amiga, pensou em si mesmo e em seus quarenta anos.  
Amanda tinha as pernas mais bonitas que ele já vira. Rijas, fortes, delgadas, esguias, e um par de joelhos... hum!!!.... Jamais aparentara a idade que tinha, embora não a escondesse, muito pelo contrario, divertia-se da confusão que provocava. Parecera-lhe, desde o primeiro momento um sol naquele ambiente frio do escritório. Nunca se enquadrara realmente às normas rígidas, e sempre que podia as transgredia. Trouxera, um dia, um vaso de flores vermelhas para compor a sua mesa, e abrira as janelas deixando o sol cobrir de luz os processos amontoados nas    prateleiras. Numa outra ocasião, irrompera em sua sala enchendo-lhe o rosto de beijos e abraçando-o efusivamente pelo seu aniversário. Lembrava-se agora, com um gosto supremo, do próprio rosto queimando, como se fora um adolescente. Ela  trazia uma alegria natural e duradoura,   era solidária, justa, suave, leal, companheira, dedicada  e competente...
Era mecânico e formal o gesto do garçom  lhe servindo o almoço, bem como eram os seus gestos distraídos e distantes, com os olhos presos na vidraça, agora, embaçada. O barulho a sua volta aumentava à medida que se aproximavam as 14.00, e os cheiros se misturavam dificultando a sua identificação. Uma garota usando aparelho nos dentes sorriu para ele.   Lembrou-se filho. -Arre! Não o suportava com aquelas ridículas borrachas vermelhas nos dentes, falando sibilante entre os arames, dificultando ainda mais um diálogo que já não existia.  Coisa da mãe dele, que o garoto não precisava daquele artefato bucal. Mas Silene  acompanhava a moda e tudo o que o consumismo determinasse. Voltou-se para a janela, com a expressão irritada. - Por onde andaria a mulher de jeans azul?
 Descansou os talheres relembrando o dia em que surpreendera Amanda a examinar a meia com a saia levemente levantada. O constrangimento da situação não o impediu de registrar o espetáculo. Pedira desculpas e se retirara da sala, muito vermelho.
Passou os olhos preguiçosamente pela praça de alimentação e ajeitou-se na cadeira procurando uma posição mais confortável. Tomou o resto do suco que estava no copo  refletindo  que faltava bastante tempo  para as 16h00min.  Sorriu ao pensamento enquanto conferia a conta que o garçom lhe apresentava.  Jogou o cartão sobre a mesa e  só então levantou os olhos. Nesse momento, ele percebe que bem próximo de si, na mesa ao lado, de pé, com os cabelos curtos e molhados, uma mulher do jeans azul olhava diretamente para ele. Ficou estanque com a mão suspensa no ar, um sorriso trêmulo na boca, e uma expressão totalmente surpresa nos olhos. Vagarosamente ela veio a seu encontro, sorrindo-lhe. O espaço era pequeno entre uma mesa e outra, mas ele pode, nessa fração de segundos, perceber o seu quadril largo  ajustado dentro da calça jeans molhada e suas  pernas  trocando-se de forma sensual e elegante.  Um arrepio percorreu-lhe a espinha quando he adivinhou pélvis rija.  O colo arfava sob os pacotes escondendo os seios pequenos que dançavam nus sob o tecido vermelho da blusa.  Sentiu o seu perfume misturar-se a um sorriso cristalino, franco, maduro sedutor. Seus gestos eram largos e firmes.  -. Amanda!!
Ele levantou-se desconcertado, emocionado, surpreso, para  receber um abraço saudoso, efusivo, interminável!  Acolheu-a ao peito como se agasalhasse o seu próprio pensamento e com intimidade e ternura colheu o cheiro de seu cabelo; e a maciez da sua pele  pode sentir na mão que percorreu o seu ombro, exageradamente. 
_Ah quanto tempo Amanda! Ah quanto tempo! Sentam-se de mãos dadas, mudos diante da enxurrada de perguntas que se fazem das respostas que se devem. Velhos vizinhos, velhos amigos... Examinam-se.
Surpreendera-o a sua forma. Como estava bela! O tempo só a fizera mais linda e as marcas, se é que as tinha, faziam dela uma mulher única, inconfundível! Disfarçou a emoção, e a ouvia, hora sim hora não, preso à sua boca que falava e ria, evidenciando dentes alvos que contrastavam os lábios vermelhos de batom. Em um dado momento seus olhos se cruzaram e se prenderam, e o olhar dela era um corredor escuro e misterioso. Disfarçou o batimento cardíaco como pode, assim que emergiu.  Ela procurara assentar-se o mais perto possível e suas pernas se tocavam sob a mesa transmigrando um calor intenso, o qual ele consumia avidamente.
Ele tentava ser natural, comedido, casual. Pedira suco de morango para ambos e o tomava com certa ansiedade. Observou alguns cabelos brancos nas têmporas da mulher compondo como uma moldura um perfil sensato e misterioso, caminhou os olhos  pelo seu pescoço elegante, longo,  e admirou o  gesto arrogante de segurar o queixo com as mãos levemente em concha. De vez em quando ela passava as mãos pelos cabelos, ajeitando-os com a altivez de uma rainha, e com esse gesto seu colo sardento se elevava sutilmente, deliciosamente, permitindo-lhe supor seios soltos e densos. Perdeu-se em alguns momentos tentando adivinhar por onde os dedos dela viajavam quando ela os deslizava sob o decote. Seus braços estavam nus e eram alvos e inquietos como duas velas de um barco a deriva.  O seu talhe era delgado, gracioso e ali, a pele saltava á mostra pronta para ser tocada. Deteve-se, afinal, na marca de batom colada ao copo.
Fora impressão sua ou ela tremera ao abraçá-lo?  E por que ela o retivera assim com uma energia sufocante, retardando o desenlace, com o coração batendo tão alto que lhe fora possível ouvi-lo? Sentiu uma vontade enorme de passar-lhe a mão pelo rosto, contornar-lhe os lábios, fechar-lhe os olhos com um beijo. Arrependeu-se de tal pensamento e pensou em ir embora- Arranjaria uma desculpa qualquer, afinal não era feriado e precisava trabalhar... Mas estava irremediavelmente preso àquela boca que continuava a movimentar-se dentro de sua imaginação, e sem perceber, apanhou-lhe o copo  de sobre a mesa, e bebeu-lhe  o beijo da  borda.
 Olharam-se nesse momento com muita intensidade e os olhos dela eram submarinos. Suas mãos se tocaram e foi como se acontecesse um choque elétrico seguido por um silêncio mortífero. No movimento os pacotes que Amanda descansara sobre a mesa espalharam-se pelo chão, provocativamente. E lá estavam eles, tentando recuperá-los, abaixados, de joelhos, sob a mesa como duas crianças. O decote de Amanda se alargara naquele movimento  permitindo que ele  visse o proibido. Ficara estático, aparvalhado diante daquele pássaro o qual desejou ardentemente reter.  Ajudou-a, entretanto, a levantar-se, e por um instante ela esteve muito próxima, tão próxima que ele pode degustar o seu hálito de morango. Era urgente beijá-la, ali mesmo, agora, setembro, explodir enfim!       
Levou, nesse momento, mecanicamente, a mão ao celular que tocava, com os olhos irremediavelmente presos aos dela. Enquanto fala o tom de sua voz se torna grave e abotoa então o colarinho, acerta o nó da gravata, verifica os punhos da camisa, consulta o relógio,  deposita o telefone sobre a mesa  e veste o paletó. Impacienta-se com o garçom que demora, alisa o cabelo com a palma da mão, abre a pasta e confere alguns papéis. Depois, prende o celular à cintura,  murmura  uma desculpa qualquer. Afinal não era feriado!
 Toma-lhe da mão, atônita, e beija-a casualmente.
 Gira nos calcanhares, elegante, impecável, pronto, e vai direto para o escritório.      
        

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

FRAGILIDADE


 

Não que amasse menos agora...
Talvez amasse mais e verdadeiramente.
Ferida de morte preferira a vida;
Comprara uma casinha com jardins
e morava sozinha com suas borboletas e aranhas.

Vandinha Valle

domingo, 30 de outubro de 2011

INCOMPETÊNCIA





Sem poder gerir meu mundo
O sonho se torna fugaz e vagabundo
Escorrendo ao corrimão da sorte.
As vezes vida... mas quantas vezes morte!
Pedaços amassados, rotos, indecentes,
Incapazes  de existir são  só sementes
De  esperanças repassadas.
Palavras vazias, cartas amareladas,
Um traço qualquer de fantasia
Que se vestiu de promessa algum dia.
O retorno  exausto a seu real momento
Traz um tédio tal e tal aborrecimento
que de novo se mergulha em reminiscências...
Que diriam então de suas consciências
aqueles que afogam em agonia
minhas poucas expressões de poesia?

  Vandinha Valle

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

MEMÓRIAS






No beco da casa um olho de lua

Me vê através da vidraça quebrada.

Um dia saí seguindo o rastro de luz

E caminhei pelos becos da minha infância
Sem lua.

Memórias ralas, falhas...

Total falta de cerimônia

Total falta de memória!

Total falta de luz!

Vandinha Valle



sábado, 17 de setembro de 2011

ROTAÇÃO

De manhã 
eu enlouqueço.
E acordo entre desejos e ardores!
Sinto teus olhos me descobrindo
Me desnudando...
E o simples pisar no chão frio
Já  provoca  sensações inconfessáveis!
Ah meu bem!
 É em você que eu penso quando amanheço.

Na tarde
Utópica,  busco o meu tempo de alegria.
Mergulho fundo, profundo, no teu rastro.
Minhas mãos passeiam no teu rosto, no teu cabelo, no teu corpo...
É meu bem!
É  você que eu quero quando entardeço.

A noite...
Nesse quarto tão vazio,
Nessa solidão tão nua, tão crua e tão medonha...
Eu canto o meu lamento sobre os telhados
Feito gata a se perder no cio.
Ah meu bem!
É você que eu desejo, quando anoiteço.

Vandinha Valle 

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

VAGA - LUME



E quando versa o tempo,
Tempo tão vadio
Que voa pelo espaço
Aproveitando o estio
E vai virando um tempo de esperança.
O verde  colorido na lembrança...
-Ah  tempos idos ! - Que   saudade!
Fomentam-se novas amizades!
Surdo e cego a tudo, um poeta  vagueia
E murmura, 
Enquanto a mão tateia 
E  rabisca...
Qualquer coisa!
Passa um pirilampo vagabundo
Num interminável pisca-pisca... 
Vadio, como eu jogada nessa rede,
bate as asas e foge pelo mundo...
Quisera fugir contigo vaga –lume!  



Vandinha Valle





sábado, 10 de setembro de 2011

TEATRAL




Entardeço!
Plena, emocionada, viva!
Sem grandes papéis,
quase desapercebida.
Nunca fui motivo de grandes paixões,
Mas quantas vezes não abri e fechei as cortinas
No principio e ao fim de cada ato.

Vandinha Valle 

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

INQUIETAÇÃO


 Estamos ante a vida em falso alarde!
Vivendo maus momentos o que é pior.
Se o tempo que passou  já passou tarde,
O dia de amanhã será melhor.

Olhamos sempre o ontem, e enfraquecidos
Caímos em desanimo. Em pouco tempo
Nos sentimos sós e envelhecidos
Num misto de dor e desalento.

Vividos, os momentos já se foram,
E não se perde tempo com momentos;
Acode os próximos, antes que te corram.

Resida na coragem, a energia
Que guia a alma e pensamentos
Que te passará mais leve o dia!

Vandinha Valle





quarta-feira, 24 de agosto de 2011

AVESSO

Ah quantas vezes me senti tão feia,
Tão só, tão seca, uma terra agreste.
Uma aranha qualquer arrancada à teia,
Um  cão vadio, a própria peste!

E quantas vezes me senti escura
Tão negra e triste uma noite fria,
Os olhos vagos, um cego que procura
Desesperado, o clarão do dia.

Ah! mas quantas vezes  me senti tão linda,
Tão suave  e morna como o por do sol;
A aurora doce , uma nova vida.

E quantas vezes me senti tão tola
Solta e leve, nuvens no espaço...
Que até  brinco de poeta em meu pedaço.

Vandinha  Valle




sexta-feira, 19 de agosto de 2011

AMOR SEM FIM


 

Ah meus filhos quando a noite cai
e o silencio invade a casa docemente,       
a respiração calma,  de repente
eu me sinto tão só em meu cansaço.
Vocês dormem tranqüilos, e finalmente
eu me sento ao seu lado e os abraço.

Dormem.. mas o meu coração aflito         
Corre a vê-los e ternamente eu os fito
como se fora  perdê-los de repente..
Uma lágrima brota levemente
e a mão que os castigou durante o dia
 se ergue em grande agonia    
a prende-los  contra o peito, fortemente.  

Ah meus filhos que ternura imensa
Me  inspiram esses anjos tão benditos,
Que  fazem os meus dias mais bonitos,
Que fazem minha vida menos tensa.
Durmam com Deus, tutu não vem pegar;
Que  o boi   boi da cara preta
Não tem medo de careta,
É só uma cantiga de ninar...



Vandinha Valle





quinta-feira, 18 de agosto de 2011

SOPRO

 
Recebe-se a absolvição  de Deus no exato instante
Em que nos entregamos ao amor primeiro!
A  Sua mão  se torna tão suave
Que é possível senti-la em nossa  face
No supremo momento,  quase desvalidos,
Em que nos vemos nus e desnutridos.
AH! de tanto amor fica-se ausente,
A alma vaga, febril, o coração ardente!
Nos olhos derramados
Há um misto de dor, amor e agonia.
E agudo se torna o próprio medo!
Deus que é portador de todo esse segredo
Assopra esse pedaço de argila ainda mutilado
E faz desse pecado abrigo para um novo dia.
O perdão  alisa essas entranhas!
E no sabor da aurora que desperta
Aquece-se e se enrosca nas cobertas
Esse corpo que, ainda, há pouco era chama.
No renascer do dia há esperança
De se viver entre flores coloridas,
De se gritar ao mundo essa criança
E de  nutrir com vida outras vidas.


Vandinha valle



sábado, 13 de agosto de 2011

CANTO DE DESPEDIDA



Eu vou embora ...  já é hora!
Consulto o relógio, agora
É tempo de caminhar.
Do tempo que aqui passei
Alguma tristeza levei,
Alguma alegria deixei,
Saudades...não vou negar!

Mas parto na hora certa
Que a vida de tão incerta
Mostrou-me um novo caminho.
Eu já vou, e vou sozinho
Que na falta de um carinho
Não hei de culpar ninguém.
Prefiro que me queiram bem !

Ao sair nesse portão
Com  os pés fincados no chão,
Nos olhos uma gota d’água,
No peito um tom de mágoa.
Mas levo também bons momentos...
Um cheiro bom...  e  aos quatro ventos
Louvores hei de contar.

E se acaso não voltar
Sequer pra visitar
Não pense que sou ingrato,
Pois  coração de gaiato
Não tenho.  E me conheces!
Daqueles que não mais se esquece
Os bons momentos que viveu.
Mas um tempo que morreu
Não vale a pena lembrar
Só vai nos fazer chorar!

Adeus! E sem mais delonga
Me mando, que a viajem é longa!
E quanto mais me seguras
Nesse calor e brandura
Mais me decido a ir.
Que o tempo urge é fumaça,
E de leve  como a cachaça
Sobe rápido, mas passa.
Costuma é fazer cair!


Vandinha Valle 
































sábado, 6 de agosto de 2011

ENCANTAMENTO





Enquanto caminhava riscava o chão com uma vara de ponta.
Olhava, encantada, o fio que sangrava a terra e  às vezes corria sentindo a brisa fria corar-lhe a face.
Colhia flores de todas as cores e ornamentava o colo seguindo um ritual lento: Primeiro as flores amarelas, depois as alaranjadas e por fim as vermelhas.  Ficava, assim, a olhar o céu como se o visse pela primeira vez e suspirava  estrelas.  Lançava-se ao espaço como se tivesse asas  e mergulhava num mar imaginário como se tivesse vida. Era assim meio impossível e muito súbita e  repetia-se e era trivial, insensata e brilhante. Sonhava  todas as noites o mesmo sonho e acordava  de humor claro.   Súbitas eram todas as suas expectativas  e  possibilidades  e  vivia de maneira única e possível, entretanto.


Vandinha Valle


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

RASCUNHO


Menina chata  chorona
Lambona molenga
Arteira treteira
Sem graça sem força,
Sem tino.
Crivada de sonhos,
Cega de mágoas,
Muda de espanto.
Pedinte,  carente, humilhada.
Escorraçada, seviciada,
Sem horizonte, sem serventia.
Pudesse viver...
Pudesse existir...
Pudesse falar...


Vandinha Valle 

terça-feira, 19 de julho de 2011

NA CONTRAMÃO



Quero a sua palavra rude dentro do meu ouvido surdo.
Quero o seu beijo vermelho dentro do meu sangue quente.
Quero a sua alma dentro do meu corpo inerte.
Quero o seu cheiro doce dentro do meu paladar faminto.
Quero o frescor da sua saliva dentro da minha sede insana.
Quero a sua loucura ardente dentro da minha razão obsoleta.
Quero a sua obscenidade dentro dos meus preconceitos absurdos.
Quero a sua coragem cega dentro da minha louca covardia.
Quero a sua arrogância dentro da minha suposta humildade
Quero a sua imprudência dentro da minha fragilidade.
Quero o seu atrevimento dentro da minha perplexidade.
Quero a sua viagem sem fim dentro  da minha chegada.


Vandinha Valle

segunda-feira, 18 de julho de 2011

UTOPIA



No ar, explícita, a razão se desvaria...
Posso mas não quero.
Quero  mas não posso...
Quem ha de compreender?
Ah essa utopia ...
que me torna plena
e tão vazia.

Vandinha Valle

sexta-feira, 15 de julho de 2011

EXPERIÊNCIA





Tão tolos os moços que me olham com cobiça
e preconceito.
Fazem–me  pensar que a juventude é por vezes
Um tempero ardido demais.
Aguardo, por isso, que  adocem,
Pacientemente.

Vandinha Valle

segunda-feira, 4 de julho de 2011

REFLEXÃO



Nada às vezes tem encanto.
Mas o cheio preenche o vago, o nulo,
E o quase também. Ao inverso, entretanto,
Sem a base não agüentaria o pulo.
Se   tudo for mudado, e portanto,
O cheio ficasse vago e o vago derramasse,
Viria o protesto de algum canto.
Que vazias são as pessoas. E quanto!
E não haveria quem agüentasse
O avesso de si mesmas. Se tanto!

Vandinha Valle




quinta-feira, 30 de junho de 2011

ANGUSTIA


O cigarro queimando no cinzeiro.
A água morna correndo no chuveiro...
Nada tem sentido se estamos sós!
E existe solidão acompanhada.
E dói mais quando pela madrugada
Ouvimos a nossa voz vindo do nada.
Solidão mata e é devagarzinho.
Feito arsênico que se põe no vinho
Tomado a goles rápidos
Não se sente o gosto.
Mais tarde só se vê no rosto
Marcas tristes, lábios apertados;
E um tom de dor nos olhos apagados. 

 Vandinha Valle

 

 

 

sábado, 25 de junho de 2011

DENTRO DO ESPELHO

Eu queria poder dizer de mim com calma e harmonia  mas fervo em temperatura ácida. 

À minha volta a escuridão enerva os meus sentidos. Tenho medo do gotejar da torneira e a sombra da geladeira cresce sempre que a luz tremula.

AH! que dor imensa é  essa!!! Estou  no território dos insanos. 

Piso na lava e a febre  me detona.... 

Fico a esperar que o tempo faça–me... 

 Quero  falar ao mundo e ao tempo,  todos os tempos.

           Penso loucamente  que a loucura é um caminho liquido e leve e  gargalho nesse caminho.Só percebo   alívio num possível oásis de flores que beijo calada.

           Entendo, ainda que ninguém entenda, que eu  estou semeando  

Mas sei que os brotos virão um dia, tão  mais tarde, muito mais tarde, quando não haverá  sequer tempo para a colheita.

Ainda assim planto! 

O pranto  pranteia o cosmo com a minha palavra rude, com o meu sentir mudo, com o meu silêncio tão agudo. E...

Sigo cegamente, tateando nessa sombra incerta e permanente, desvencilhando da luz aqui e ali como se houvesse bebido muito vinho.  

 Escrevo aqui  a palavra dos loucos e caio de bruços  no solo  seco,  trincado e vazio. 

Só ali abro bem os olhos para ver e nada vejo pois a essa hora já se  faz luz de cegar olheiro. 

 Perco  o trem da história por causa disso!   

Vandinha valle

sexta-feira, 17 de junho de 2011

SEMEANDO


 


Às vezes os meus sentimentos são enormes

E me devoram.

Eu quero gritar os meus pensamentos....

 
Sorrir com música...  Beijar com os olhos ...

Bom, eu  queria mesmo era fincar uma caneta num papel...

Fundo...bem fundo.. como se plantasse árvores. 

Vandinha Valle








quarta-feira, 8 de junho de 2011

PAZ

A paz pode às vezes ser tão pura,

Tão suave  tão linda e desejada,

Uma casa simples onde dura

O amor, os  filhos um    camarada.



A trepadeira subindo no telhado

Enchendo de perfume as madrugadas;

O beijo quente doce demorado,

Mãos que se buscam apaixonadas.



Um terreiro, jardins, uma floreira,.

O perfume suave,  a cama quente

lá fora a chuva e dentro uma goteira.



Um jantar a dois, um vinho leve,

Uma saudade, um verso ardente,

Uma  viagem...  ou  um retorno breve!



Vandinha Valle









 




terça-feira, 31 de maio de 2011

CHUVA VIVA



Betim  precisa da chuva.
Dessa chuva criadeira
Que corre a noite inteira
Fazendo a gente vibrar.
Uma chuva tão miúda
Que lave o meu telhado,
Que molhe o meu jardim,
Que floresça o meu jasmim
Que faça brotar o capim,
Que regue inteiro o meu sábado.


Que lave as pedras da rua,
Que faça a praça tão nua,
Que cause inveja a lua
Da beleza que causar.
Que faça a terra saciada,
E que forme corredeiras;
E nos cantos das calçadas
Forme grande enxurrada,
Onde eu possa pisar
E voltar as brincadeiras.


E quando o sol voltar
Eu sinta cheiro de terra.
Nas folhas,  os pingos d’água
Ainda brilhem como contas.
Estrelas de cinco pontas
Caindo por sobre a terra
Fazendo a gente cantar
Nessa terra de Betim
Meu amor, meu querubim.







sábado, 28 de maio de 2011

REFLEXÃO


Encanto-me com o impossível  quase sempre.
 Sufoco-me de desejo mas o medo absorve o meu interior e então calo-me na solidão e no silencio da minha noite.
Os insetos insistem em brincarem na luz e eu me divirto pensando na morte como encantamento e sedução.
         Nada poderá calar-me mais que a minha própria incompetência e a minha disposição de ficar quieta, enquanto o tempo passa sem piedade e sem governo que o domine. 
Angustio-me com a minha sombra projetada na parede pois ali sou maior que eu mesma.  E luto para encontrar aquilo que não está dentro de mim e que ficou perdido pelos caminhos que percorri. 
 È impossível calar a  minha consciência escondida detrás  do muro, então as sombras resvalam à minha volta como fantasmas endurecidos, permanentes sentinelas de minha inexistência.
Ah só o impossível me emociona e me encanta!
Ah  o sonho... Ah... o sonho!!!!

quinta-feira, 26 de maio de 2011

RECADO



Nesse peito onde me refugio                        
Quero me aconchegar
E bem devagarinho
Ficar...ficar...ficar...
Sentir teu cheiro e no teu carinho
Talvez um beijo casual quase vadio
Percorra-me suavemente a face
Provocando  em mim leves arrepios,
E me fazendo tão leve que é como se eu voasse.
Quero serenar a alma magoada
E no mar desse olhar tão doce,
Sentir-me presa e amparada
Por âncoras eternas...
Tão ternas...
Seguras...firmes...
E tão amadas!



DOCE PECADO

Doce   pecado


Naquela boca mora um beijo:
Casual  às vezes, inocente outras,
 mas atrevido, indecente, debochado,
 a me esperar distraidamente.
Impertinente me sorri...
Sinaliza para mim.
Inconveniente se insinua,
Imoral me torna nua!
Beijo  feiticeiro que  me expõe sem censura            
E me constrange
pronto a saltar sobre mim      
cegando a minha compostura,
destravando os meus conceitos,
alterando os meus costumes.
Naquela boca mora um beijo maldito
Que caminha no meu caminho,
Que dorme no meu sono,
Que ronda o meu pensamento.
Beijo vadio...
Exposto  como  numa moldura!
Inquieto, ele  resvala na minha palavra!
Letal, acelera o   coração no peito!
Ardido, acende o rubor na minha face e
Tão  suave que me faz leve e convalescente.
Beijo doce que mora naquela boca tão doce
E que  me torna diabética.
De hortelã, de aniz, de canela,
Beijo de beijo
que machuca e que cura
 que adoece e  que restabelece,
que agoniza e que ressuscita ,
que acalma e  que desespera .
ah! essa boca do sim e do não
que me atordoa, me espreita
e não me pertence.
Ah beijo da boca do inferno e
 da porta do céu !
Indecente, sem censura, sem medo,
Sem vergonha,
E que mora naquela boca proibida,
Naquela   boca ...


Vandinha valle

terça-feira, 24 de maio de 2011

DESCOMPASSO


Hoje é domingo
Pé de cachimbo...
Amanhã é segunda, dia de feira.
O homem corcunda lá estará
com a sua longa cabeleira
vendendo barriga de freira
pra moça que passa lampeira
pra mim não passará.

O dia que passa  repassa.
O sonho que veio irá
Pra longe e como a cachaça
Tem  o copo de comparsa
E pelo dia correrá.
Do bar fica a saudade,
No peito fica a vontade...
-E este dia que não passa?!

A vida corre depressa.
-Socorro! Quem está lá?
O radio toca uma prece
E o menino que não cresce
Traz um recado...ilusão...
O telefone toca chamando,
Alguém está me esperando
Bate- bate coração!

Chama a panela vazia
Oh  fulana venha cá!
E a casa desarrumada
Também está a chamar.
Desse jeito  a alma fria
Já não pode se agüentar!
-Jogo o fone na fachada
Do primeiro que passar!

A campainha insistente
Avisa que chegou gente e
O feijão se queimará!
-Menino desce daí
Vamos todos aprontar.
-A escola... acode a porta!
Ah! -Já bateu  o que me importa?
-Ai meu Deus, o que será!

O tanque está derramando
Corre água pelo chão.
Dentro do peito jorrando,
Chora o meu coração.
Faz frio dentro de casa
Faz frio dentro do peito...
Chega o homem da COPASA.
-Passa essa roupa direito!

-O correio! que alegria!
-Minha irmã   como estará?
-A mamãe o que fará?
-E o bilhete da loteria?
-Meu Deus já são meio dia!
Não dá tempo pra pensar,
Muito menos de sonhar!

Tanta coisa pra olhar!
-Meninos dêem seu jeito!
E as plantas pra molhar?
-Vê se param de brigar!
Tiro a  panela do fogo.
E o resultado do jogo?
Desliga a televisão!!!
-Ai, meu Deus, que aflição!

O cachorro está latindo.
-Menina larga a vassoura!
-Vocês continuam bulindo!
-Sai depressa do chuveiro!
-Meninos vão apanhar!
-Será que grama é dinheiro?
-Depressa venham tomar
todo o suco de cenoura!

-Socorro onde andará
Toda a minha mocidade!
-Socorro onde andará!

Passa a vida passa o tempo,
Passo a manteiga no pão,
Passa a dor, a ilusão,
Passo o pano pelo chão,
Na roupa eu passo sabão,
Na janela ate o vento!

A vida que passa
 Repassa!
E o  mundo que eu  não sonhava
num tempo que não passava?
O amor onde andará?
Passa tudo! E, desalento!
Chora o sonho enquanto o tempo
Nunca deixa de passar.

-Joga milho pra galinha
Que o patrão já vai chegar.
Tanta  louça pra lavar!...
-Veja a saia da vizinha!
-Cuidado! Vou-me estrepar.
Corro ao posto da esquina
Que é dia da gasolina!

A tarde já vai chegando...
Passos lentos na calçada
E a criançada brincando
Faz bagunça na entrada.
-Cuidado que se machucam!
São pequeninos que buscam
Muito sonho pra sonhar,
Muito espaço pra brincar!

Alguém derrama a banheira...
Tem criança pra nanar,
Tem visita pro jantar,
-Bota lenha  na fogueira,
quando é que eu vou descansar?

A noite chega faceira
E aquela moça fagueira
Passa pra lá  e pra cá.
Os casais se namorando...
O corpo todo suando
Pede uma cama... E já!

A mão que me busca treteira
É mão de quem quer amar.
O corpo exausto se esgueira
A briga levanta poeira
Eu preciso descansar
Eu preciso relaxar
Que amanhã... é terça feira!


Vandinha Valle